quinta-feira, 28 de abril de 2011

A mídia que você não vê: cobertura do “Beijaço”







Os principais veículos de comunicação cobriram na última quarta-feira, dia 27 de abril, o “Beijaço” - movimento criado por integrantes do Grupo Universitário em Defesa da Diversidade Sexual (Gudds) da UFMG. O protesto pacífico era contra a série de ações violentas de cunho homofóbico que aconteceram recentemente não só no campus da Universidade, mas em todo país, o evento reuniu uma média de 150 pessoas e durou cerca de uma hora e meia.

O protesto, que começou às 12h, tinha como objetivo chamar atenção da população para a sexualidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) e conseguiu, de fato, o destaque midiático solicitado, mesmo que de forma diferente em cada veículo.

Globo, Record, Band, Estado de Minas, O Tempo, Hoje em Dia, Itatiaia e TV UFMG compareceram ao local. Apesar da luta contra a homofobia ter sido o principal objetivo da manifestação, percebia-se que a maior preocupação da imprensa era captar imagens de casais homossexuais se beijando. Nos primeiros 20 minutos do evento, programado inicialmente para durar apenas meia hora, repórteres, cinegrafistas e fotógrafos ficaram apreensíveis já que nenhum dos participantes havia trocado beijos e abraços até o momento. Gracielle Pouzes, estudante de Psicologia, percebeu a inquietação da imprensa em registrar a relação homoafetiva. “Eles estavam querendo filmar beijo, sem saber direito porque estavam aqui. A causa não ficou muito bem estabelecida”, comenta.

Entretanto, o estudante de Design de Moda e drag queen André da Silva - ou Malonna, personagem do jovem -, organizou os presentes no gramado da Reitoria e fez a contagem regressiva para o “beijaço”, aparentemente a pedido dos jornalistas.

De acordo com Silva, também repórter do Projeto D - programa independente que busca dar visibilidade à comunidade LGBT -, a imprensa deveria ter focado em cobrir a situação, o que não ocorreu, já que os veículos estavam indagando a validade da manifestação contra a homofobia. Além disso, o estudante aponta que a cobertura estava apelativa, mostrando o “gay folclórico”, como coloca, da mesma forma que a parada gay é noticiada, no sentido de fortalecer a imagem estereotipada do homossexual; como a alegria e as cores, características do movimento em geral.

Assim, os repórteres, segundo o estudante de Design de Moda, chegaram a perguntar sobre a proposta do evento, mas acabaram focando a cobertura nos “mitos fundadores” da comunidade LGBT. “Quando me viram vestido de drag, [os jornalistas] juntaram em mim. E depois quase suspiraram quando falei que era estudante de Design de Moda”, relata.

A falta de seriedade na cobertura da última quarta-feira também foi criticada pelos integrantes da causa, como o estudante de Artes Visuais Afonso Scliar. Segundo ele, a homofobia é um tema que precisa ser tratado com seriedade pela imprensa, já que é um assunto relevante, especialmente frente aos atos homofóbicos que permeiam o país. “Não adianta só sair a agressão contra gays na calourada de Letras, depois sair que tem um monte de gente se beijando no gramado da Reitoria e depois vem notícia de esporte”, constata.

Segundo o estudante de Artes Visuais, a imprensa aproveitou a recorrência do assunto na mídia, como os casos do deputado Bolsonaro e da ex-BBB Adriadna – transexual -, para abordar a manifestação de forma sensacionalista. Assim, deixa de mostrar algo sério que é a orientação sexual e acaba tratando o assunto de uma forma divertida, chegando a beirar o ridículo. “Não lembro de uma matéria dos grandes veículos de comunicação que tenha aprofundado no que diz respeito ao preconceito sofrido diariamente. Eu sou gay e conheço muitos casais gays e posso dizer que ninguém tem coragem de dar um beijo na rua. Isso não é sério?”

Apesar de também não concordar com a forma que a imprensa abordou o protesto, a estudante de Design de Produto Fernanda Siqueira, acredita que a cobertura é difícil, devido ao fato da causa ser urgente. “A homofobia acontece agora, não pode ser uma coisa deixada pra lá. Quanto mais divulga, mais deixa comum”, assegura.

Já o bancário Marcos Nicolau e seu namorado, o mestrando em Computação Pedro Silva, consideraram a cobertura tranquila. “Todos os veículos se aprofundaram na causa e de forma calma. Não foi nem um pouco agressivo, eles foram respeitosos, alguns até pediram autorização antes de tirarem fotos”, relata Marcos.

ANÁLISE A Rede Globo divulgou o evento em uma reportagem que foi veiculada no MGTV 2 e no Globo News. Apresentando uma cobertura completa em relação aos outros veículos, as repórteres Fabiana Almeida e Flávia Cristini conseguiram dar um tom de seriedade à matéria, ao trazer uma pequena retrospectiva de casos mais recentes de homofobia em Minas, como o episódio com o jogador do Vôlei Futuro, Michael e as agressões contra os quatro estudantes homossexuais na calourada do curso de Letras da UFMG. Além disso, apresentou também a posição da Universidade, que divulgou apoiar o “Beijaço”.

As entrevistas com os atacados, que tiveram as identidades preservadas, possibilitaram um maior entendimento da origem da iniciativa da manifestação, conforme dito anteriormente. O aprofundamento da Globo, que abriu espaço para estudantes e professores discutirem a causa, dando visibilidade para o protesto do Gudds, também fugiu do estereótipo ao retratar a comunidade LGBT.

Além disso, o “Beijaço” conquistou o destaque principal na seção de Notícias do portal G1, algo não esperado pelos participantes em geral. Afonso Scliar, por exemplo, ao ser perguntado sobre o que ele esperava da cobertura midiática adiantou que “certamente” não sairia na capa do jornal, ou com qualquer destaque maior, no caso das emissoras e dos portais de notícia. “Vai ser colocado como uma curiosidade, sem a seriedade que o assunto merece”, garante Scliar.




De certa forma, com exceção da Rede Globo, o prognóstico do estudante estava correto. A Record e o Hoje em Dia - jornal pertencente à Rede - trataram o assunto de forma cautelosa e superficial, fato que pode ser explicado pela linha editorial dos veículos do empresário e pastor Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. No caso do Hoje em Dia, apesar de ter enviado um repórter e um fotógrafo ao local, a matéria divulgada no site do jornal foi comprada da Agência Estado; ato repetido no portal R7, da emissora.

Percebe-se, assim, como a linha editorial de um veículo influencia de forma efetiva na construção da notícia. Ao contrário da Rede Globo e do jornal O Tempo, que divulgaram fotos explícitas do “beijaço gay”, ambos veículos buscaram ocultar essa realidade. Além de ter publicado uma nota com uma foto de estudantes heterossexuais segurando uma placa “#EuSouGay”, fazendo uma referência ao movimento que foi organizado nas redes sociais, a notícia não ganhou destaque, sendo publicada na página 18 do caderno Minas, em sua parte inferior.

Apesar de o jornal ter dado visibilidade, mesmo sendo pouca, ao evento, a reportagem exibida no MG Record desconheceu a manifestação, ao focar na proibição de festas no campus, consequência das agressões homofóbicas ocorridas na calourada no último dia 2 de abril, seguindo a linha de entrevistas da Globo com as vítimas da UFMG.
A Band também abordou a fundo a implantação de medidas de segurança no campus devido aos recentes surtos de violência na Universidade, mas em relação ao protesto em questão, divulgou apenas uma nota.

Os jornais O Tempo e o Estado de Minas inverteram a forma de abordagem da Band, apesar de terem dado pouco destaque à notícia, publicada em ambos em página par, buscaram focar no fato do “Beijaço” ser um ato a “favor da tolerância sexual”, como foi colocado no Estado de Minas.

A visibilidade dada ao movimento agradou André da Silva, que não esperava a sobriedade da imprensa frente ao assunto. “Fiquei bem tranquilizado com a diluição do teor folclórico”, declara.

Apesar da cobertura de vários veículos, apenas Globo, Band e O Tempo divulgaram imagens de beijos entre casais homossexuais. As emissoras de televisão Alterosa, Rede Minas e Rede TV não cobriram a manifestação.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Beijo gay na TV: é agora?


O (quase) beijo gay nas novelas já é polêmica desde 1988. Em “Vale Tudo”, de Gilberto Braga, as homossexuais femininas até passearam de mãos dadas, mas ficaram bem longe do beijo. Já em “Torre de Babel” (1998), o casal de lésbicas morreu na explosão de um shopping, supostamente pela falta de aceitação do público. Em “Senhora do Destino” (2004), as personagens apareceram seminuas na mesma cama, mas nada de beijo de novela.

Na atual novela da 21h, "Insensato Coração", da Rede Globo, o núcleo gay conta com vários personagens, mas Gilberto Braga, um dos autores, já avisou que não vai ter beijo. Já o SBT promete colocar no ar um beijo entre as atrizes Luciana Vendramini e Giselle Tigre, na novela “Amor e Revolução”. A cena já estaria gravada e deve ir ao ar essa semana.

Muitos se perguntam se os telespectadores estão preparados para o tão falado beijo gay na TV, porém talvez fosse importante questionar se a mídia brasileira quer entrar num debate que gera polêmica – e arriscar-se a perder audiência.

Talvez a grande mídia brasileira não desrespeite o público GLBTT, mas também não parece contribuir da maneira que poderia para combater o preconceito. Algumas vezes colocar um casal gay numa novela serve mais para chamar atenção para polêmica do beijo do que para discutir os direitos dessas pessoas. E quando o beijo não acontece, pode não se correr o risco de perder telespectadores, mas abarcar no reforço do preconceito.

Se o beijo não ocorre e a justificativa é a falta de aceitação do público, pode parecer que toda a sociedade é contra os gays. Isso reforça o preconceito ao simplesmente tomar a posição daqueles que não aceitam, de fato, as demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo. E é bom ressaltar que não é a sociedade toda.

É bom lembrar que combater o preconceito deveria ser uma das responsabilidades da grande mídia. E das novelas, afinal o Brasil é famoso pelas tramas e até exporta por seus folhetins. Agora, é esperar e ver se o SBT vai mesmo levantar a bandeira colorida ou se só quer chamar atenção.




A TV americana foi além do beijo gay. No famoso seriado Sex and The City, a personagem Samantha teve um caso – com direito a cenas calientes – com a pintora brasileira Maria, interpretada por Sônia Braga.



segunda-feira, 11 de abril de 2011

Lea T.

Em entrevista ao Fantástico, a modelo Lea T. conta como foi a descoberta de sua sexualidade. Ela também fala sobre família, infância e adolescência e o sobre o preconceito que sofre por ser transexual.


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Entenda melhor a transexualidade

As questões relacionadas à sexualidade costumam ser polêmicas, em especial no que diz respeito à transexualidade. Isso se dá, muitas vezes, por desinformação. Assim, com esse áudio documentário, nosso objetivo é esclarecer e explicar o que é e como ocorre a operação para mudança de sexo. Transexual é aquele que nasceu homem e se sente mulher, ou o contrário, nasceu mulher, mas se sente homem. O Código Internacional de Doenças, elaborado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), define a transexualidade como "transtorno de identidade de gênero".

Escute o podcast, se informe e entenda melhor o assunto!

Podcast by liladgrc
*podcast produzido pela equipe do Midia Six em 2010

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Transexualidade na mídia: uma diferente - e interessante - forma de abordagem

Se por um lado algumas publicações da imprensa preferem especular sobre diversos fatos polêmicos do mundo das celebridades, a revista feminina Lola inovou ao dar voz a um de seus principais envolvidos. Na edição do mês de Março, há a publicação de uma carta, chamada “Dois Filhos em Um”. Quem assina a matéria é Toninho Cerezo, um dos maiores alvos sobre a polêmica envolvendo Lea T. Cerezo, de quem é pai.


Para quem não sabe, Toninho Cerezo foi um jogador profissional de futebol no Brasil nos anos 1970 e 80, tendo passado por clubes relevantes. A imagem de masculinidade de Cerezo, ligada ao mundo do futebol, foi abalada, quando seu filho, Leandro, assumiu publicamente ser transexual. A partir de então, na imprensa muito se disse sobre ele evitar o assunto e até desconsiderar Leandro, agora Lea, como filho.

Muito bem aceita por grandes marcas, como Givenchy, Lea tem se dado bem na carreira de modelo, o que alimenta a polêmica. Assim, o espaço concedido pela Revista Lola a Toninho Cerezo dá aos leitores a oportunidade de saberem exatamente tudo que se passou na cabeça dele, sem especulações de terceiros, e entender o porquê da inicial não-aceitação do passado recente do ex-jogador, que na matéria faz uma declaração de amor a então filha, rompendo com preconceitos e orgulho.

Assim, logo em sua sexta edição, a Revista Lola Magazine, que é uma das mais recentes publicações da Editora Abril, conseguiu mostrar uma proposta ainda pouco explorada pela mídia. Com objetivo declarado na época de seu lançamento, de ser uma revista voltada ao público feminino com idade superior a 30 anos, ela se destina à mulher "bem-humorada e charmosa, que quer ter um ponto de vista inteligente sobre os assuntos do dia a dia", nas palavras da própria editora, buscando mostrar diferentes pontos de vista e fazer a leitora refletir.
E parece que o público de Lola também está pronto para receber tal conteúdo, pois na edição seguinte, deste mês de Abril, a sessão de “e-mails” teve como tema predominante a positiva reação dos leitores à matéria de Cerezo, uma das chamadas de capa, mas não a principal ou mais longa da revista (muito pelo contrário, ocupava apenas duas páginas). Além da surpreendente e majoritária aceitação do público a um tema que causou tanta polêmica, mais uma surpresa: não só mulheres, mas também homens amantes do futebol, que não são o público alvo da revista, comentaram e ser orgulharam da coragem de seu ídolo em assumir a filha como ela é.

Fica a pergunta: o público que tem acesso à revista por coincidência tem a cabeça mais aberta em relação a questões de diversidade sexual, ou seria essa uma resposta natural para uma nova forma de abordagem do assunto nos grandes veículos? Comente o que você pensa, pois nós, do Mídia Six, queremos saber!